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Lá e cá – A vida dividida entre Brasil e Portugal

A postagem de hoje contando como foi e ainda é a vivência no exterior é da Mayara minha querida prima, que os familiares chamam de Duda, inclusive eu. Nós crescemos juntas e sempre fomos muito amigas. Por isso, não foi fácil administrar a saudade quando em setembro de 2015 ela embarcou rumo a Portugal não mais a passeio e sim para morar. Mas chega de enrolação e vamos ao relato belíssimo e emocionante que a Duda escreveu para o blog!

Começo por contar que viver em Portugal é como voltar no tempo, não por que Portugal é um país atrasado, mas por que Portugal carrega e transmite história, através das calçadas, das portas de entrada das vilas e cidades, do tratamento com as pessoas… Escutei até mesmo o “Vossemecê”, isso não é antigo, é riqueza de vocabulário. Até o luto das mulheres que se vestem de preto por anos a fio, impressiona. – Isso, já não existe. – Mas, em Portugal, sim.
Gira, parvo, fixe, miúdo, rapariga, bué, tá se bem, pá. Arrefecer é esfriar. Frigorífico é geladeira. Sanita é o vaso. E por favor, Sousa é com ´s´e não com ´z´… Tenho de aprender, preciso aprender.

E os castelos? Uau! Coisas da época romana. Monumentos e museus espalhados por todos os lados. Tão orgulhosos por contar a história ao mundo todo. E quem não vem cá, não sente a importância desta grande pedra preciosa que é Portugal. Faz-me lembrar de Minas Gerais, que carrega tanta história quanto aqui. Basta fechar os olhos, apalpar as paredes e por vez abrir os olhos e vê as pessoas encostadas nas janelas ou a pendurar as roupas… Assim, consegue entender. Sentir.

Mulheres ainda sofrem com a perda de maridos e filhos na guerra do ultramar, com a dureza da ditadura de Salazar e com o alívio da independência do 25 de Abril. Andamos na rua e avistamos gente do mundo inteiro. Da linda ilha de Cabo de Verde, angolanos e moçambicanos também tomam conta das ruas, com suas danças e maneiras de falar tão engraçadas. Chineses e marroquinos com seus pontos de vendas. Ingleses e brasileiros que querem só festas no Algarve, e por aí vai… O pastel de nata, a bifana, o arroz de tomate, o empadão de carne, o bacalhau a brás… Por falar em comida, engordei seis quilos. Pois, é isso que Portugal também faz por ti.

Não posso deixar de falar do ícone Cristiano Ronaldo, que além de ser conhecido no mundo inteiro, a cara dele está estampada por onde vais. Confesso, que eu não gostava do tipo dele, achava-o demasiado convencido, mas hoje estando em Portugal e conhecendo pouco que sinto e sei, acho ele muito merecedor de tudo que já conquistou.

Dizem que o povo português é direto, frio, desconfiado, dramático, e de poucas afeições. Concordo. Assim como eles acham que os brasileiros são alegres, falam alto, são exagerados, homens bandidos e as mulheres “fáceis”… Todos (todos mesmo) dançam samba, comem sempre arroz com feijão e churrasco… E que tudo sempre está “tranquilo e favorável”. Também concordo. Mas, também há outras versões de cada povo. Acredito que somos como camaleões, nos adaptamos de acordo com o ambiente que estamos, e muito mais que isso – somos uma mistura do que vimos, vivemos e dos sonhos que alimentamos.

Viver em Portugal tem um ponto espectacular, que aqueles que não gostam muito de regras, sofreriam um bocado para adaptar-se. Que é o “Bem feito”. Sim, a comida tem que está bem-feita. A cama tem que está bem feitinha, a roupa muito bem passada. Horário é para cumprir. E etc, etc, etc. Não sofri com isso, mas estava habituada no “relaxa, no fim tudo se ajeita”, essa frase que tipicamente usamos no Brasil, aqui já não serviria tanto, traduziria para “faça bem feito, passo a passo, um dia de cada vez, que vai dar certo. Tem que dar certo”. E realmente dá. E isso não é protocolo, lei ou regra, eles são assim. É natural do português fazer as coisas bem-feitas, e se gabarem por isso. Não é uma questão de serem convencidos, e sim de serem diretos. Realistas. Sem meias bocas. As vezes me arrepiam, mas sou camaleoa.

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Quando foi dito-me o que eu faria no lar, engoli seco e só consegui dizer “ok, não é nada impossível de se fazer”. Quis logo voltar para a mineradora e salas de aulas em que trabalhava no Brasil, mas como toda escolha cabe uma ou duas ou milhares de consequências, resolvi ficar. E aceitar as condições do trabalho do lar. No início, claro, claríssimo, que fui tudo demasiado assustador. O primeiro quarto que entrei para levantar uma velhinha, eu estava acompanhada com uma colega, a velhinha havia feito muito xixi, ao ponto de trocarmos todos os lençóis, roupas e até o travesseiro. Ops, falta a dentadura. Estava no chão, no meio daquela lameira de xixi. Ok, coloca-se as luvas e mãos a obra. Eu ali, toda cuidadosa ao lavar as costas da velhinha. Ela nem dizia nada. Nem um pio. Pensei que não falava. Até que ela soltou “vá esfrega isso rápido, de pressa, lava-me que tenho fome.”

Queria rir. Mas chorei.

Com o passar dos dias, percebi que elas não são de porcelanas e que não vão quebrar. Óbvio que algumas delas, tínhamos que lavar com mais cuidado. Vestir e tratar com mais cuidado. Algumas escolhiam suas próprias roupas. Descobri isso, quando fui abrir oguarda-fatos(guarda-roupa), quando escuto uma voz baixinha vindo da cama “nem ouse, a minha roupa está debaixo da almofada”. – Ok, eu disse. Com o passar de duas semanas, já sabia o nome, a localização do quarto e as manias de todos. Aliás, quanto as manias era surpresa. E aí eu já não chorava, e sim sorria. Ok, sim senhor. Já estava a vontade ao ponto de conversar, de cantar e de cuidá-los.

Eu não era a Mayara, era um nome difícil para pronunciarem, portanto eu era a Maraya, a Mari, a Mariana, a Maya, a Maria, a Yaya, a menina, a brasileira, a de Pavia… Pavia era a vila onde eu morava. Elas diziam “menina Mayara, tu não tens medo de voltar sozinha para Pavia?”. Eu ria-me e sempre dizia – “não, é pertinho” Até que desvendei o mistério de tanta preocupação. Elas faziam esse trajeto a pé na altura de apanhar as azeitonas, além de muitas vezes voltar com os sacos as costas. São 15 km. Demasiado para andar no frio ou no calor do asfalto no verão… Como elas são guerreiras. Como eu as admiro. Cada traço de suas faces carrega-se tanta dor e pouca alegria. Tempos difíceis o que elas viveram.

Lá eu aprendi de verdade a cuidar de pessoas, desde lavá-las, trocar fraldas, dar banhos, dar a comida, o medicamento, e todo o carinho e cuidado que precisam. Aprendi alguns truques da cozinha e até a cozinhar alguns pratos. Aprendi a dobrar as roupas e a arrumar a cama em sua devida perfeição. E vi muita coisa… 80 velhinhos… Vi o câncer, vi as diversas formas de reação do alzhemier, a demência, os efeitos do AVC, a paralisia, a não vontade de viver, a ausência dos filhos…

No dia 25 de Dezembro, natal, enquanto eu dava almoço a uma senhora que enfrentava uma necrose grave na perna direita, ela disse-me “hoje é natal, eu tenho três filhos e quatro netos, ainda nenhum veio me ver”. O que dizer disso? O que sentir em um momento destes, em que eu também não estava com a minha família? – E há um detalhe curioso nessa senhora, há meses e meses em que ela não falava. A única coisa que dizia era “ai ai ai”, quando as enfermeiras iam lavar a ferida da perna. Era triste ainda mais, quando apegamos a eles, e encontramos a cama vazia. Cheguei até mesmo ajudar a amanhar uma senhora que faleceu. Uma coisa que nunca pensei. Mas fiz. Vi e vivi isso tudo em um ano. Um ano que marcou para sempre a minha vida.

Por trás de todo este conto do lar, no qual, eu não contei tudo, estava uma mulher. Cansada. Na luta. E com imensas saudades da família. Lembrava das minhas avós, e do quanto fiz pouco por elas.

Neste um ano no lar, nove meses fiz inglês e fiz uma formação para dar formações e aulas, na esperança de conseguir um trabalho melhor. Não foi fácil, fazia mais de 100 km/dia. Aos fins-de-semana também trabalhava, o que restava poucas horas de convivência com meu namorido. Ainda tinha que “enfrentar” todos os dias a insegurança, a solidão, a ansiedade, a saudade da vovó Judite, da Paulinha, dos meus pais e irmã, da família e amigos… Ufa!! Não, pera…Faltou dizer da vizinha que espiava da janela… Longos dias. Bastava um espirro, e a vila toda já sabia. Se pensas em um dia morar por qualquer vila de Portugal, deixo um conselho: não ligues para o que vão dizer. Por que vão dizer, independente do que faças. Portanto, faças. Tu és dono de si.

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Digo sempre que Lutamos juntos, pois eu nunca estive sozinha nessa. E nem estou. Tudo mudou quando decidimos mudar para Lisboa. Assim fizemos, e para minha surpresa na semana seguinte consegui um trabalho em uma rede de lojas de fabricação e venda de sofás. Mais uma vez, o coraçãozinho apertado por iniciar um novo trabalho. Dessa vez, não tão duro e pesado como no lar, mas era de conhecimento técnico, que aos poucos, os modelos e tecidos viraram meu estudo. Em um mês bati o recorde. Faturei para a empresa. Em dois meses faturei ainda mais. Sou a melhor? Não. Sou convencida? Também não. Mas, se eu não me encarnasse em uma vendedora, possivelmente, não havia passado do primeiro mês, por que aqui, as coisas têm que serem bem-feitas. E eu preciso de trabalho. Aprendi e aprenderia muito mais se outra oportunidade não batesse a porta. Desta vez, outra surpresa: a empresa no qual eu conheci o meu namorido no Brasil, convidou para trabalhar, por um contrato de seis meses. E isso é bom demais. Vou voltar a exercer a minha profissão, nem que seja por pouco tempo, mas vou fazer o que sei fazer, ou melhor, o que eu mais aprendi a fazer ao longo de sete anos. Vou voltar a ter os fins-de-semana, para cuidar melhor da casa, para aprender um prato novo, para correr ao pé da praia que é onde moro, e principalmente, vamos ter mais tempo um para o outro. Estou a falar de mim e dele, do amor da minha vida. Da maior razão por eu mudar de vida e vir para Portugal.

Pronto, final feliz, vocês devem estar a pensar. Não… Aqui não há final feliz. Há momentos e dias felizes. Há vida feliz. A maior lição que Portugal me trouxe é que deve-se viver um dia de cada vez. Passo por passo. Aqui a vida é dura, muito dura, apesar de o cenário ser lindo e encantador.

Daqui seis meses, volto as ruas de Lisboa, a procura de trabalho, a procura de aprender algo novo, pois nunca é tarde para nada nessa vida, nem mesmo para descobrir os maiores valores. Será altura também de prestar candidaturas as universidades, de fazer novamente uma prova de perguntas abertas sobre a história de Portugal, se calhar, estarei mais preparada. Estou a fazer planos? É melhor não fazer tantos, pois a vida surpreende…

Um país tão pequenino, que conseguiu despertar em mim o meu melhor, algo que eu nem conhecia. Comecei a levar a mim mais sério e menos da vida… Viver em Portugal é aprender. É viver. É renascer.

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Que relato lindo, não é? Estou com os olhos marejados e cada vez mais orgulhosa da minha prima que eu sempre considerei uma irmã. Não tenho dúvidas do caminho de luz e felicidade que ela está trilhando.

Você também gostou do relato? Então deixe nos comentários suas impressões e se tiver, suas vivências nesse adorável país.

Lá e cá – A vida dividida entre Brasil e Portugal

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